‘PMs chegaram atirando’, diz mãe de menina morta no Santo Inácio

 

“Não houve troca de tiros. Os PMs chegaram atirando. Desde ontem que estão fazendo isso”. O relato é da auxiliar de serviços gerais Maria Ângela de Jesus Nogueira, 34 anos, mãe da pequena Geovanna Nogueira da Paixão, 11, morta com um tiro na cabeça durante uma incursão policial na Comunidade Paz e Vida, bairro de Santo Inácio, em Salvador.

Diferente da versão contada pelos policiais militares, que alegaram ter sido recebidos a tiros por bandidos, na comunidade Paz e Vida, na manhã desta quarta-feira (24), Maria Ângela afirmou que tudo estava tranquilo na rua, quando os policiais chegaram. Vizinhos confirmaram que esta é uma prática comum por parte dos agentes.

Desde que se separou do marido, há seis meses, Maria Ângela foi morar com Geovanna e o outro filho, de 5 anos, com a mãe. A família relata que, no início da manhã desta quarta, a menina viu o avô – que sempre visitava a casa – chegando na rua. Nessa hora, segundo a mãe, a menina gritou: “É vem meu avô”, e se dirigiu à porta da casa – um barraco de madeira.

“Ela era um chamego com esse avô”, contou, desolada, a auxiliar de serviços gerais.

Vizinhos ouviram o barulho de tiros e saíram correndo para ver o que era. “Só vimos Dona Valdete caída por cima dela”, contou uma moradora da comunidade Paz e Vida sobre o desespero da avó materna.

Testemunhas revelaram que os policiais iam continuar circulando pela comunidade sem prestar socorro a Geovanna, até que um vizinho gritou com a menina nos braços: “Olha o que vocês fizeram aqui”. Só com o apelo do homem que os policiais pararam a viatura e levaram os dois até a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Pirajá.

Revolta
“Isso tem que parar. Não só por Geovanna, mas por todo mundo. Assim como foi ela, pode ser qualquer outra pessoa”, comentou um amigo da família, na porta do Instituto Médico Legal (IML), para onde o corpo da menina foi encaminhado na tarde desta quarta. O enterro será na próxima sexta-feira (26), em horário e local ainda a ser divulgados.

Segundo moradores da comunidade, que fizeram um protesto por conta da morte, Geovanna é a terceira criança que morre na mesma situação em Paz e Vida. Logo depois que as mais de 250 famílias chegaram e montaram seus barracos de madeira, há cinco anos, outra menina de 11 anos morreu baleada em uma incursão policial. Há dois anos, foi a vez de um garoto de 14, também numa suposta ação desastrada da PM.

O repositor Joselito de Jesus, 27 anos, vizinho da família, também protestou contra a situação de maneira silenciosa, segurando um cartaz com os dizeres “polícia entrou atirando e mata criança”. Revoltado, ele apela ao Secretário de Segurança por uma resposta aos crimes na comunidade.

“Aqui a gente não tem paz. Será que vamos ter que esperar que tenham mais dez, quinze mortes para que se faça alguma coisa”, questionou o repositor. Outra moradora, Odenir Oviedo, 57 anos, conta que não há tráfico de drogas na região, mas que os policiais chegam atirando.

Os moradores da invasão alegam que são perseguidos desde que chegaram no terreno, supostamente uma propriedade particular. “Eles chegam aqui e não querem saber se tem criança na rua. Batem em mãe de família. Dizem que aqui só tem ladrão e vagabundo”, denuncia Joselito.

Versão da PM
De acordo com a assessoria da PM, no momento em que a menina foi baleada, policiais da 48ª Companhia Independente de Polícia Militar (CIPM/Mata Escura) buscavam informações sobre a fuga de autores de homicídios na região da Mata Escura. No entanto, quando a equipe chegou na localidade Paz e Vida, foi recebida por tiros disparados por bandidos.

Diante disso, continua a PM no comunicado, os policiais revidaram, “no intuito de neutralizar os agressores”. Logo após o fim do tiroteio, um homem pediu socorro aos PMs, porque uma menina tinha sido atingida por um dos tiros. Os policiais prestaram socorro e levaram a criança até a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Pirajá.

De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), Geovanna chegou à unidade por volta de 7h, com um quadro clínico de parada cardiorrespiratória. Ela foi ferida na cabeça – com perfuração no nariz, com saída na parte posterior do crânio. Os médicos ainda tentaram reanimá-la, mas a menina não resistiu aos ferimentos.

A ocorrência foi registrada na Corregedoria Geral da PM e, a partir de agora, um Inquérito Policial Militar (IPM) deverá ser instaurado para esclarecer o que realmente aconteceu – inclusive, de qual arma partiu o disparo que atingiu a menina. O prazo para conclusão do inquérito é de 40 dias, com possibilidade de prorrogação por mais 20.

Fonte: Correio 24h

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