Eleição presidencial tem maior número de candidatos desde 1989

Com treze nomes confirmados para disputar a Presidência da República, o Brasil terá este ano a eleição mais pulverizada em quase 30 anos. Desde 1989, quando o brasileiro precisou escolher entre 22 nomes,  o cargo de comandante da nação não era tão disputado. Outra semelhança até aqui entre a disputa atual e a que elegeu Fernando Collor como presidente é o cenário de imprevisibilidade.

Nem mesmo o encerramento do período de convenções foi suficiente para trazer mais clareza ao cenário eleitoral este ano. O PT insistiu no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – preso em Curitiba, cumprindo condenação em segunda instância e que, dificilmente, poderá ser candidato. Neste cenário, o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, foi indicado vice de Lula, com possibilidade de ascender, caso o registro do líder petista seja mesmo negado.

Com Lula, o cenário é um. Ele desponta em primeiro, seguido de longe pelo deputado Jair Bolsonaro (PSL), em segundo. Em alguns cenários, o líder petista surge com até 31% das intenções de votos. Sem o petista, o jogo embola. Bolsonaro lidera, mas por margem pequena em relação a Marina Silva (Rede) e Ciro Gomes. No melhor dos cenários, surge com 17% de intenções de votos, seguido de perto por Marina, com 15%, e Ciro, com 9%.

Cenário traçado
A grande dúvida que permeou o cenário de pré-campanha foi qual seria o caminho do PT. Em 2011, Lula deixou a Presidência com mais de 80% de aprovação e ainda possui eleitorado cativo na região Nordeste. Seu partido ainda vai contar com um minuto e meio de tempo de TV e com a segunda maior fatia do fundo eleitoral de campanhas: R$ 212 milhões.

Mas o ex-presidente está atrás das grades desde o início de abril. Por peculiaridades da legislação brasileira, poderia concorrer preso, mas seus planos estão ameaçados pela Lei da Ficha Limpa, que barra candidatos condenados em segunda instância.

Sem Lula, o partido enfrentou dificuldades para fechar alianças. A maior vitória alcançada foi a de tirar o PSB dos braços de Ciro Gomes, enfraquecendo assim o candidato que poderia rivalizar com o Lula, ou mais provavelmente o “plano B” do eleitorado mais à esquerda.

O ex-prefeito Fernando Haddad, apresentado no último fim de semana como vice de Lula, e futuro candidato após o ex-presidente ser impedido de disputar a eleição pela Justiça Eleitoral, passou praticamente batido pela pré-campanha. Não foi a debates e sabatinas, além de só ter tido a oportunidade de negociar apoios na condição de porta-voz do ex-presidente. Nas pesquisas, aparece com 2% de intenções. Vai ter que torcer para que Lula, consiga lhe transferir votos.

Largou na frente
Pode não ter uma vantagem significativa, mas é o nome de Bolsonaro que aparece em primeiro nas pesquisas, quando o nome de Lula é retirado. Com um discurso focado na segurança pública, pautas conservadoras nos costumes e a fantasia do anti-PT, o ex-militar até aqui caminha para alcançar o melhor desempenho eleitoral de um membro da extrema direita na história do país.

Apesar de ter largado na frente, sofreu na pré-campanha para conseguir escolher um candidato a vice-presidente. Negativas de suas primeiras opções fizeram com que tivesse que responder perguntas a respeito de um suposto isolamento político.

Outras possíveis dificuldades estão relacionadas à sua estrutura partidária. O PSL de Bolsonaro possui oito segundos dos 25 minutos de propaganda de rádio e TV, além de apenas R$ 10 milhões do fundo eleitoral – que Bolsonaro, inclusive, já avisou que não utilizará.

Na cola
Logo atrás de Bolsonaro estão Marina Silva e Ciro Gomes que, assim como Bolsonaro, foram incapazes de utilizar os números de intenções de votos para fechar alianças com outros partidos.

Ciro Gomes bem que tentou. Após conversas com o “Centrão” – formado pelo  DEM, PP, PR, PRB, PSD, PTB e Solidariedade –, o ex-governador cearense viu o grupo fechar com o ex-governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB). Nas conversas mais à esquerda, Ciro perdeu para o PT os apoios do PSB e do PCdoB, que retirou a candidatura de Manuela D’ávila, provável vice de Haddad.

Alckmin trabalha para transformar em intenções de voto o amplo leque de alianças que construiu. Com oito partidos ao seu lado, deverá contar com 40% do tempo de propaganda de rádio e TV.

Correm por fora Henrique Meirelles (MDB), Álvaro Dias (Podemos), Cabo Daciolo (Patriota), Guilherme Boulos (PSOL), João Amoêdo (Partido Novo), João Goulart Filho (PPL), José Maria Eymael (DC) e Vera Lúcia (PSTU).

Política e economia lembram clima de 1989
Após seis eleições presidenciais marcadas por uma intensa polarização entre o PSDB e o PT, o cenário que se desenha para a escolha do novo comandante da nação é bem mais semelhante ao que se verificou em 1989. Além do grande número de candidaturas, completam o quadro a situação econômica ruim e uma sensação de descrença na classe política.

No final do primeiro semestre, analistas  do banco de investimentos suíço UBS traçaram paralelos entre os dois períodos da política brasileira. A primeira grande diferença é que em 1989 o brasileiro foi às urnas exclusivamente para a escolha do novo presidente. Isso retirou do tabuleiro eleitoral o peso das alianças regionais.

Com base em dados compilados em pesquisas do instituto Datafolha, o UBS verificou ainda que a proporção de eleitores inclinados a votar branco ou nulo nunca foi tão alta na história do país.  A proporção de brancos, nulos e dos indecisos sobre votar estava no maior patamar da história desde a redemocratização, em 67%, mas não muito longe da média histórica. Os analistas consideraram as pesquisas do mês de abril. No mesmo período, em 1989, estava acima de 50%. Em 1994, era de 65%; em 2014, 61%.

Se este ano o período de pré-campanha trouxe à tona o interesse do apresentador Luciano Huck e do dono da Riachuelo, Flávio Rocha, de chegar à Presidência, em 89 ninguém menos que Sílvio Santos  se colocou na disputa eleitoral.

Em 1989, o Brasil enfrentava uma hiperinflação herdada da ditadura militar e estava com uma dívida externa explosiva.  A situação agora não é tão dramática, mas é outro ponto que possibilita a comparação: a saída da recessão está lenta, a inflação está controlada (mas por causa da baixa demanda) e o desemprego atinge 13 milhões de pessoas.

O cenário nas eleições depois de 1989 e antes de 2018 estava mais definido, e os vencedores saíam das coligações dos dois maiores partidos do período, PT e PSDB. Mas em 1989, assim como agora, as perspectivas eram mais nebulosas.

O UBS lembra que, em 1989, o então governador de São Paulo Orestes Quércia estava liderando as pesquisas até o mês de maio, mais ou menos. Foi só depois disso que Fernando Collor – que acabou sendo eleito presidente – e outros candidatos começaram a alcançá-lo. Quércia, inclusive, nem chegou ao final da disputa eleitoral. Cedeu o lugar para o ex-deputado Ulysses Guimarães.

Saiba quem são os candidatos confirmados:

Álvaro Dias (Podemos) 

O senador Álvaro Dias foi escolhido pelos convencionais do Podemos para ser candidato à Presidência da República. A candidatura do parlamentar pelo Paraná foi oficializada em Curitiba, durante convenção nacional do partido. Na primeira fala como candidato, Álvaro Dias anunciou que, se eleito, vai convidar o juiz federal Sérgio Moro para ser ministro da Justiça, e repetiu a promessa de “refundar a República”.

Ele vai compor chapa com o ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Paulo Rabello de Castro, cujo partido, o PSC, havia decidido lançar candidatura própria à Presidência, mas desistiu em favor de uma aliança com o Podemos. Além do PSC, fazem parte da coligação até agora os partidos PTC e PRP.

Cabo Daciolo (Patriota)

A convenção nacional do Patriota oficializou a candidatura do deputado federal Benevenuto Daciolo Fonseca dos Santos, o Cabo Daciolo. O evento ocorreu no município de Barrinha, no interior de São Paulo. O candidato foi escolhido por unanimidade. A candidata a vice escolhida foi Suelene Balduino Nascimento, do mesmo partido. Ela é pedagoga com 23 anos de experiência e atua na rede pública de ensino do Distrito Federal.

Daciolo defende mais investimentos em educação e segurança por considerar áreas essenciais para o crescimento do país. Em discurso durante a convenção, Daciolo se posicionou contrário à legalização do aborto e à ideologia de gênero.

Ciro Gomes (PDT)

O PDT confirmou no dia 20 de julho a candidatura de Ciro Gomes à Presidência da República, na convenção nacional que reuniu filiados do partido.

O partido ainda não definiu o candidato a vice-presidente. Esta é a terceira vez que Ciro Gomes será candidato à Presidência da República: em 1998 e 2002, ele concorreu pelo PPS. Natural de Pindamonhangaba (SP), construiu sua carreira política no Ceará, onde foi prefeito de Fortaleza, eleito em 1988, e governador do estado, eleito em 1990. Renunciou ao cargo de governador, em 1994, para assumir o Ministério da Fazenda, no governo Itamar Franco (1992-1994), por indicação do PSDB, seu partido na época. Ciro Gomes foi ministro da Integração Nacional de 2003 a 2006, no governo do ex-presidente Lula. Tem 60 anos e quatro filhos.

Geraldo Alckmin (PSDB)

Em convenção nacional realizada na capital federal, o PSDB confirmou a candidatura do presidente do partido e ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, à Presidência da República nas eleições de outubro. Dos 290 votantes, 288 aprovaram a candidatura de Alckmin. Houve um voto contra e uma abstenção. A senadora Ana Amélia (PP-RS) é a vice na chapa.

No primeiro discurso como candidato, Alckmin disse que quer ser presidente para unir o país e recuperar a “dignidade roubada” dos brasileiros. Ele defendeu a reforma política, a diminuição do tamanho do Estado e a simplificação tributária para destravar a economia.

Guilherme Boulos (PSOL)

O coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores SemTeto (MTST), Guilherme Boulos, foi lançado no dia 21 de julho como candidato à Presidência da República pelo PSOL, na convenção nacional em São Paulo. Também foi homologado o nome de Sônia Guajajara, representante do povo indígena, para vice-presidente.

Boulos destacou que irá defender temas que pertencem aos princípios do partido, como o direito ao aborto e à desmilitarização da polícia.

Henrique Meirelles (MDB)

O MDB confirmou no dia 2 de agosto o nome do ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles como candidato à Presidência da República. Hoje, o partido informou que Germano Rigotto, ex-governador do Rio Grande do Sul, será o vice na chapa.

Henrique Meirelles destacou como prioridades investimentos em infraestrutura, para diminuir as distâncias no país, além de saúde e segurança pública. O presidenciável também prometeu reforçar o Bolsa Família. Para gerar empregos, Meirelles disse que pretende resgatar a política econômica, atrair investimentos e fazer as reformas para que o país cresça 4% ao ano.

Jair Bolsonaro (PSL)

O deputado federal Jair Bolsonaro (PSL-RJ), 63 anos, foi confirmado no dia 22 de julho como o candidato à Presidência da República nas eleições deste ano pelo PSL. A chapa ainda não tem vice.

Na convenção, Bolsonaro adiantou que, se eleito, quer excluir o ministério das Cidades e fundir pastas como Fazenda e Planejamento, assim como Agricultura e Meio Ambiente.

O candidato prometeu ainda privatizar estatais.

João Amoêdo (Partido Novo)

João Dionisio Amoêdo foi oficializado candidato à Presidência da República pelo Partido Novo durante convenção na capital paulista. O cientista político Christian Lohbauer foi escolhido como candidato à vice-presidente. Entre as principais propostas de Amoêdo estão equilibrar as contas públicas, acabar com privilégios de determinadas categorias profissionais, melhorar a educação básica e atuar fortemente na segurança. O presidenciável também é favorável à revisão do Estatuto do Desarmamento.

João Amoêdo disse que quer levar renovação à política e mudar o Brasil. O presidenciável defendeu a privatização de empresas estatais.

João Goulart Filho (PPL)

O PPL lançou, no dia 5 de agosto, João Goulart Filho como candidato à Presidência da República. Ele é filho do ex-presidente João Goulart, o Jango, que teve mandato presidencial, de 1961 a 1964, interrompido pela ditadura militar. É a primeira vez que João Goulart Filho concorre ao cargo.

O candidato a vice é Léo Alves, professor da Universidade Católica de Brasília. Algumas propostas do candidato são a redução drástica dos juros da dívida pública para dar condições ao Estado de investir no desenvolvimento social, o resgate da soberania, o controle das remessas de lucros das empresas estrangeiras e a revisão do conceito de segurança nacional.

José Maria Eymael (DC)

O partido Democracia Cristã (DC) confirmou no dia 28 de julho, durante convenção na capital paulista, a candidatura de José Maria Eymael à Presidência da República, nas eleições de outubro, e do pastor da Assembleia de Deus Helvio Costa como vice-presidente.

Na área econômica, as diretrizes gerais de governo do DC incluem política macroeconômica orientada para diminuição do custo do crédito ao setor produtivo, apoio e incentivo ao turismo e a valorização do agronegócio com ações de governo específicas, que ainda não foram divulgadas, e apoio aos pequenos e médios produtores rurais.

Luiz Inácio Lula da Silva (PT)

A convenção nacional do PT escolheu, por aclamação, o nome de Luiz Inácio Lula da Silva para ser o candidato à Presidência da República. O ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad foi definido como vice e possível substituto, se Lula for impedido de disputar a eleição. O encontro também homologou o apoio do PCO e do PROS à candidatura do PT.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está preso em Curitiba, desde 7 de abril, após ter sido condenado em segunda instância no caso do triplex de Guarujá. O ator Sérgio Mamberti leu uma carta escrita por Lula, onde ele afirmou que “querem fazer uma eleição presidencial de cartas marcadas, excluindo o nome que está à frente na preferência popular em todas as pesquisas”.

Marina Silva (Rede)

A primeira convenção nacional da Rede Sustentabilidade confirmou, por aclamação, o nome Marina Silva como candidata da sigla à Presidência da República. O candidato à vice na chapa, o médico sanitarista, Eduardo Jorge, do Partido Verde (PV), também foi apresentado oficialmente no encontro.

A presidenciável prometeu uma campanha limpa, sem notícias falsas e sem destruir biografias. Se comprometeu com as reformas da Previdência, tributária e política, que acabe com a reeleição e incentive candidaturas independentes. Se eleita, Marina também disse que pretende fazer uma revisão dos “pontos draconianos” da reforma trabalhista que, segundo ela, seriam feitas a partir de um diálogo com o Congresso.

Vera Lúcia (PSTU)

De acordo com Vera Lúcia, o plano de governo prevê reforma agrária, redução da jornada de trabalho sem redução de salário e um plano de obras públicas para atender as necessidades da classe trabalhadora. Em convenção nacional, o PSTU oficializou no dia 20 de julho a candidatura de Vera Lúcia à Presidência da República e de Hertz Dias como vice na chapa. A escolha foi feita por aclamação pelos filiados ao partido presentes na quadra do Sindicato dos Metroviários de São Paulo, na zona leste da capital paulista.

O PSTU decidiu que não fará nenhuma coligação para a disputa presidencial, nem alianças nas eleições estaduais.

FONTE: Agência Brasil

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