Do livro Irmandade da Palavra: A voz da Mulher ressoando no Recôncavo; veja

Foto: Divulgação

Por Deisiane Barbosa

Já imaginou a potência duma Irmandade formada por mulheres, concentrada no pulsante recôncavo baiano, cuja liga é dada pelas palavras? Ela existe. Mulheres, em suas diversidades, unidas pelo nobre objetivo de contarem a si e as suas, inventando as próprias histórias. Na pressão da caneta em papel, cavando o vigor de se firmarem no mundo, inscrevendo-se na vida, fincando possibilidades de existências plenas. Sim, elas existem! – vivem, fazem, lutam, constroem, amam.

Procure saber, pois já anda circulando pelos melhores ventos um livro todo costurado à mão, pela Cartonera das Iaiá, reunindo vozes, memórias, cores, sonhos de mulheres atuantes na efervescência duma Bahia tão singular: São Félix, Acupe de Santo Amaro, Saubara e Cachoeira. Foram nessas localidades que a equipe do projeto cultural Irmandade da Palavra circulou para realizar oficinas de escrita, autorretrato e costura de livretos artesanais.

Irmandade da Palavra também dá nome a este livro feito, a princípio, para olhos e mãos. Depois alcança todo corpo-leitor, que não consegue ler sem movimentar-se para além do imaginário: faz viagens, corre trechos pelo que cada narrativa vai tramando. Ele, em si, já é a plena expressão de visualidades, mas, além disso, reúne uma série de ilustrações e registros das oficinas. O livro te leva, se você deixar-se (flu)ir. Não estou aqui falando de uma publicação dessas facilmente encontradas em qualquer livraria – é mais raro que isso, pois contempla uma proposta delicada, ousada, bem conceituada e, além de tudo, sustentável – vide as capas feitas de papelão, cuidadosamente carimbadas e preparadas uma a uma.

Neste mapeamento de recôncavo baiano você vai encontrando seções de ESPELHOS onde diversos rostos negroindígenas se mostram; costuras de CHÃOS, misturas de terras onde se planta a resistência de passos que vêm de longe; você mergulhará na FARTURA DAS ÁGUASque são o próprio seio dessas que cuidam e almejam cuidado; saberá de INFÂNCIAS felizes, tristes, vivas, intensas; testemunhará como o fazer das MÃOS fabrica e lapida a vida; e então chegará às CORAGENS– plurais, porque são mais de uma formando essa rede.

No folhear das páginas fui enxergando como uma única “mulher preta” carrega em si cartografias que dizem os lugares, personagens e tempos (nem sempre tão vitoriosos) e é a mesma que canta a própria esperança e o empoderamento. Assume “cara de mãe / que é cara de vó / herança de tantas” e são vozes cantando de onde vêm, qual é a sua pertença; cantando saudades e prenúncios, lembrando suas marias, terezas, ou “jacira, / a velha que não conheci – contaram-me / que chorava a falta de sua gente bugre / e diante do mar absoluto intuía o costume / que lento tecia as carnes de nossa gente: / partida”.

Foto: Divulgação

E assim vou fluindo… E assim, também poderás fluir, leitor/a.

Pois quando pegam a palavra pelos dedos, tais escritoras costuram o próprio enredo a pontas largos, incisivos, inconfundíveis. ”Para mim, não há fronteiras e sim, horizontes”. Vejo narrativas feitas do cotidiano, trabalho, filhos, batalhas, alegrias, sonhos, deuses, mistérios, superações… Textos que mandam a real: “Mulher não é objeto para ser usada, / não é tapete para ser pisada. / Mulher nasceu para ser amada e respeitada.” Como este, há outros poemas que são protestos, questionamentos, dedo-na-cara, satisfações a se exigir, reparações a receber. Elas seguem atentas, ou vão despertando, ou vão sonhando mesmo assim – até quando é difícil pegar no sono.

Aqui revelam-se mulheres amando, vingando, crescendo, com o mesmo vigor de nascerem todos os dias um tanto repaginadas – espécie de palimpsesto. Mulheres que se salvam pela fé, a sapiência, a atenção de aprender e valorizar a herança que trazem. Essas vozes ressoam recôncavo adentro, afora. E se as cidades lhes falam é porque as mulheres escutam atentas, lapidando-se na arte da colheita. Com respeito, peneiram, lavam, tratam, temperam, alimentam a si, oferecem às bocas dos quem têm a sempre-fome da poesia. É também desse modo que se forma uma Irmandade selada pela palavra.

Oras leio versos assim: “as ruas do brega / e as suas solidões acompanhadas / estalam poemas mortos / poemas pretos e pretas / ocupando o óbvio”, e depois não consigo permanecer na superfície, sem arriscar mergulho ao fundo de cada uma dessas densidades. São poemas que mostram até a cidade que “não deve” ser vista, ou antes, os lugares que não escrevem no roteiro turístico e até fingem passar batido – só que não! Na poesia cabe de tudo.

Cabe, inclusive, um pequeno inventário de objetos esquecidos no tempo, porém, vivos pela afetividade da lembrança, como o velho candeeiro, o balaio de cipó, a bendita colher, ou a arupemba, a agulha de crochê, o caderninho. Evocando o conceito poético de Conceição Evaristo, esse livro nos traz um sem fim de escrevivências: memórias que se revestem de linguagem. Na incorporação de estilos peculiares, encontram jeitos únicos de processar a vida em modo verbo e grafia.

Há prosas muito sagazes onde cabem boas leituras sobre diversidades, o exercício da desconstrução-re-construção, o respeito, o autocuidado, as pazes com o espelho. Como na história da menina azul, obstinada em mudar de cor, até o dia em que se re-descobre. Já outra personagem, moradora da Ladeira do Milagre, que vai crescendo em meio ao diverso, aprendendo a transitar pelas diferenças. Com isso, feito uma costura com tacos de pano, vai se criando mais rica de vivências, consequentemente, mais livre.

Há poemas como gritos de liberdade: “A África em mim / Vive livre como um pássaro”. E se, porventura, insiste alguma espécie de corrente, rapidamente entende-se, não se trata de grilhão, mas é o próprio rio que, sendo corrente, “encanta e embeleza”. As vozes também cantam isso, esse corpo líquido e vivíssimo nas veias –– leito de mãe, sustento de famílias. “Essa terra tem um rio / onde corta duas cidades / para nós é alegria, / é pura felicidade.”

“Uma marisqueira / sentada na pedra / bebe-fumo escondido / debaixo dela // seu pão de cada dia a conquistar // A maré está vazando / tá na hora de levantar / A maré está enchendo / Vou pra casa descansar (…)”. Em versos assim, mulheres ensinam pescaria enquanto escrevem poema – afinal, quantas não são as proximidades nessas ciências tão nobres? Palavras aqui são tudo o que quiserem ser, pelas mãos, línguas e no linguajar dessas mulheres: “o mar ia / o mar ria // (…) ora mário / ora maria // sempre dizia que ficava / mas no fim // ia”. Como o rio, que ora é verbo, ora dá nome a coisa corredeira. Se leio “rio de minha biografia”, a graça toda é confundir-me em multi sentidos e gozar as ambiguidades do poético.

“Um dos meus passatempos favoritos era lançar o gato no terreiro em frente à casa. E minha vó gritava: – Muruel, vai pegar o gato no terreiro! § É. Eu era terrível ou ainda sou? Presente, passado ou futuro? Lembranças são atemporais.” Se gracejo com a travessura de uma certa Muruel, também sou levada pela mesma narradora-personagem a refletir sobre a atemporalidade que nos rege. Nada nesse livro te deixará quieta/o num só estado de espírito. E por isso reafirmo, ler é para olhos, mãos, boca, e quando nos damos conta, já percorre corpo todo, nos tira do lugar, nos movimenta afetivamente.

“21.JUL.2019 / ÚLTIMO DIA § Foi difícil, Cachoeira. No meio das oficinas, notícias pesadas que chegam. Mulheres se equilibrando entre problemas familiares, as crianças pequenas reclamando atenção, os lápis, os lápis, as canetas, os livros. Seguimos tentando compassar susto, cansaço, corre-corre, poesia. Deu no que deu: escritos das alegrias de lutar cotidianamente, alguma lágrima e no final, essa cerveja, que ninguém é de ferro.” É muito belo quando, primeiro, a própria cidade é vocativo, é destinatário, pois são os ouvidos para o desabafo, pois traduzem os olhos que acolhem esse corpo de textos literários.

E quando pensamos que o livro pode ter “acabado”, a gente visita uma tal “porta-narrativas”, que além de referência à biblioteca itinerante do projeto, é aqui um pequeno bolso onde de reservam um apanhado de memórias sobre a costura do livro. Dessa maneira, Irmandade da Palavra é um objeto poético que não para de contar-se, reescrever-se, transcrever-se, incorporando ao seu devir os nossos sonhos de futuro.

“Mesmo seco o leito de um rio ainda guarda o seu nome” é o provérbio africano que abre o caminho das páginas. E segue acompanhando a força de cada poema, cada crônica e conto. São palavras que ainda seguem muito latentes, mesmo após fecharmos o livro, pois convocam nossas águas particulares a juntarem correnteza num mesmo rio que liga os pequenos recôncavos que somos cada uma / cada um de nós.

*Deisiane Barbosa se identifica como poeta/andarilha/escritora de cartas/artista visual. Graduada em Artes Visuais pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, na cidade de Cachoeira. Publicou em 2015 o livro-objeto cartas à Tereza: fragmentos de uma correspondência incompleta

SERVIÇO:

Livro:  Irmandade da Palavra (Cartonera das Iaiá, 2019)

Valor: $40,00 (com frete incluso)

Compre pelo: iaiacartonera@gmail.com 

***Toda a renda convertida para aquisição de equipamentos para a editora***

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