Aluna com fuzil em fotos de formatura gera grande debate sobre liberdade nos EUA

Uma mulher que posou para suas fotos de formatura nos Estados Unidos, com um rifle pendurado nas costas, gerou um debate acalorado sobre liberdade pessoal, “privilégio branco” e porte de armas.

Kaitlin Bennet se formou em biologia pela universidade de Kent State, em Ohio. No dia seguinte, a jovem de 22 anos voltou ao campus da faculdade com um rifle AR-10, arma semiautomática, para posar para fotografias, enquanto segurava o chapéu de formatura em que podia ser lido: “Venha pegar”.

Bennet, que depois postou as fotos no Twitter, disse que estava protestando contra a política da universidade de proibir estudantes, professores e funcionários de carregar “armas letais” no campus, ao mesmo tempo em que permite que “convidados” portem armas nas áreas externas da instituição de ensino.

Ela destacou que Kent State foi o local onde “quatro estudantes não identificados foram mortos a tiros pelo governo” – uma referência a um episódio de 1970 quando soldados confrontaram manifestantes contrários à Guerra do Vietnã, disparando tiros que atingiram 13 pessoas.

O tuíte dela foi compartilhado por mais de 4.800 pessoas e recebeu 19.000 curtidas, gerando uma onda de comentários positivos e negativos.

Em postagens posteriores, Bennet se explicou.

Defesa pessoal

No Facebook, a jovem disse que estava promovendo o “direito de se defender”.

Ativistas favoráveis às armas costumam defender o fim de “zonas livres de armamentos” e legislações que permitam que cidadãos “cumpridores da lei” possam usar armas tanto em ambientes fechados quanto em áreas externas. Eles argumentam que isso reduziria o número de fatalidades em atentados com armas.

Bennet disse que escolheu um AR-10 – versão mais poderosa do rifle AR-15, que foi usado nos últimos tiroteios em escolas americanas – porque a arma combinava com seu vestido branco e seu sapato de salto.

“Como mulher, eu me recuso a ser uma vítima e a Segunda Emenda da Constituição garante que eu não preciso ser uma”, tuitou.

Críticos rebateram dizendo que, ao mesmo tempo em que a Constituição garante o direito a ter armas, este direito pode ser regulado. Armas automáticas, como as usadas pelo Exército, já foram proibidas para porte de cidadãos nas ruas.

Mas Bennet defende que as metralhadoras deveriam permitidas.

Privilégio branco?

Uma das críticas a Bennet foi a de que, por ser branca, ela pode ter o “luxo” de carregar uma arma em público, enquanto minorias étnicas – que já são alvo de discriminação e suspeição- arriscariam provocar uma resposta violenta das autoridades.

Em 2016, Philando Castile, um homem negro, foi morto a tiros por um policial de Minnesota durante uma blitz de trânsito, após informar que possuía uma arma licenciada no carro.

Bennet respondeu a essas críticas dizendo que curte o “privilégio branco” de poder carregar seu rifle sem medo de sofrer “racismo flagrante”.

“Eu acho que é muito ofensivo às minorias”, disse ela numa entrevista à Fox News, na quinta. “Eu não acho que coisas ruins deveriam acontecer com eles.”

Mas a jovem acrescentou que foi escoltada durante as fotos por um segurança negro da universidade e que liderou uma manifestação no campus, em abril, pelo direito ao uso de arma que contou com a participação de alguns negros donos de AR-15. Segundo ela, não houve incidentes durante essa manifestação.

“Tirania do governo”

O trecho das postagens de Bennet que causou mais polêmica foi a menção ao tiroteio de 1970, em Kent State, que gerou protestos em massa nos Estados Unidos e serviu de combustível aos movimentos contrários à Guerra do Vietnã.

Uma fotografia vencedora do prêmio Pulitzer que mostrou uma mulher em desespero ajoelhada sobre um estudante à beira da morte se tornou uma das imagens mais marcantes daquele período.

Laura Hudson, editora de cultura do site The Verge, perguntou à sua mãe – que estava presente no tiroteio de Kent State – o que ela achava das visões de Bennet.

“Se essa mulher visse outros seres humanos morrerem na frente dela, talvez não fosse tão enfática na defesa do uso de armas”, afirmou.

“Se os estudantes da universidade de Kent State tivessem armas naquele dia, o massacre seria ainda maior. Muitas pessoas de ambos os lados teriam morrido. E quando você presencia alguém morrendo na sua frente, sangrando até a morte, isso muda você para sempre.”

Os comentários de Bennet, porém, refletem uma corrente popular de pensamento entre pessoas que defendem o direito a armas. Para esse grupo, a Segunda Emenda da Constituição americana não serve apenas para defender o direito à autodefesa. Seria também um “baluarte” contra a “tirania do governo”.

De acordo com essa visão, os autores da Constituição elaboraram a Segunda Emenda para permitir que cidadãos armados lutem caso o governo atente contra seus direitos. É uma corrente difundida entre grupos de extrema direita e também propagada pelos fabricantes de armas quando promovem seus produtos.

Por causa da publicidade que recebeu com as postagens no Twitter e Facebook, Bennet diz que recebeu uma proposta de emprego de um fabricante de armas baseado em Ohio chamado Blue Target Firearms. Ela afirma que continuará a defender o direito de usar armas em Kent State e em outras partes dos Estados Unidos.

Fonte: G1

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